Afinal, de quem é o Mundo?

Chega de falarmos de Educação Inclusiva, né? Afinal, de quem é a Escola? Se os alunos estão todos matriculados ali, fazem parte da mesma turma, eles têm direitos iguais. Então, porque alguns teriam que ser “incluídos”? A escola não é TÃO deles quanto dos demais? Numa turma de 25 alunos, são 25 seres humanos diferentes. Com ou sem algum tipo de diagnóstico, teremos ali 25 diferentes níveis de aprendizagem, variando exponencialmente a cada diferente disciplina!

Pois bem, simplesmente por isso eu já teria adorado a Aula Inaugural do curso “Reflexões Sobre Educação para Todos”, do pedagogo Daniel Nascimento (UNICAMP). Ele me alertou para essa mudança de conceito: “Educação de Qualidade para Todos” no lugar de “Educação Inclusiva”. O curso é a mais recente brilhante iniciativa do Espaço PIPA, que convida à reflexão os professores das redes pública e particular de ensino de Piracicaba (eu não sou nem um nem outro, mas não poderia perder essa chance de aprender mais, e ajudar o Bruno a atingir seus objetivos).

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O que pode ser feito nas escolas, para que se dediquem a ensinar a todos, sem distinção ou discriminação? Como trabalhar, no dia-a-dia, com objetivos que permitam o aprendizado de TODOS? O papel da escola é apresentar os recursos, oferecer os estímulos, encontrar estratégias capazes de extrair o máximo do potencial de cada aluno. Educação é isso.

A princípio, parece absurdo, por exemplo, que nas faculdades de Pedagogia a disciplina Educação Especial saiu do currículo! Mas ampliando o olhar, fica fácil perceber que não se trata de uma disciplina! Se a Educação é para Todos, o que vem a ser Educação Especial?! O que cabe à escola, sim, e está previsto em lei, é o apoio do AEE – Atendimento Educacional Especializado, aos alunos com dificuldades de aprendizagem. E neste atendimento é necessária a atuação de professores especializados, mas isso é no contraturno, é complementar, não substitui em nada as atividades de sala de aula, onde cada um aprende de um jeito, e por isso não pode existir um jeito único de ensinar.

Adorei, e levo para a vida, a frase da mestra Maria Teresa Mantoan, trazida pelo professor Daniel na aula: “dentre todos os alunos, temos aquele que é o dedal, o outro que é o copo, e aquele que é a caixa d’agua; a escola tem que cuidar que todos estejam cheios”. Não é fantástico? Na sua empresa, na sua família, na sua cidade, no mundo, também não é assim? Pessoas diferentes, com expectativas diferentes, experiências distintas, com mais ou menos sede! O papel desafiador do gestor, do educador, das lideranças, é manter todos eles cheios, para que, saciados, produzam e participem desse mundo, que, afinal de contas, é de Todos!

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Aceitar ou não, eis a questão

Eu assisto às Paralimpíadas e me pergunto: “o que realmente significa ACEITAR?” Quando esses atletas se depararam com a deficiência, como eles e seus familiares “aceitaram?” Que bom se a sociedade conseguir entender, por meio desses impactantes e vitoriosos exemplos, que aceitar a pessoa como ela é (e ela mesma aceitar-se como indivíduo que é como é), não significa aceitar as limitações impostas pela deficiência. Muito pelo contrário. Quando você aceita você simplesmente não foge. Você encara, assimila, e vai à luta.

Mas vai à luta com um “Q” de inconformismo. De não aceitação… Rs… Veja como a questão é ambígua…! Com o tempo, eu aprendi a aceitar que o Bruno nasceu com Síndrome de Down, e que essa condição genética pode acarretar algumas alterações em seu desenvolvimento. Tanto aceito que assumo com ele essa condição e procuro toda a ajuda científica, profissional, divina, familiar…. disponível, existente ou a ser descoberta, que possa auxiliar-nos a enfrentar essa condição. Tanto aceito que amo meu filho em grau infinito, do jeitinho que ele é, sem mudar qualquer detalhe. Tanto aceito que quando ele fala comigo (e é muito), fecho meus olhos e ouvidos para qualquer outra coisa, paro o relógio se preciso for, para entendê-lo e dar-lhe uma resposta.

Mas quando ele quer desistir, não aceito. Quando ele faz corpo mole para algo que eu sei que ele é capaz, também não aceito. Quando ele se frustra porque percebe sua dificuldade, não aceito, e pego na mão dele quantas vezes precisar. É como se a cada dia a gente aprendesse a medida, jamais exata, do quanto, quando, e o quê aceitar. E a gente vê se está acertando essa medida quando acontecem coisas incríveis como esta: essa semana, nós quatro na varanda, a pessoinha simplesmente se levanta de onde está, vai lá, pega o giz e por iniciativa 1000% sua escreve seu nome e da sua irmã na lousa. BRUNO. ELISA.

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E não é que escreveu mesmo?

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Obrigada Deus por momentos simples mas incríveis como este, que nos dão a impressão de que todo esforço vale a pena, e de que talvez estejamos no caminho certo. Bruno, você chega lá!

 

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Como andam as nossas expectativas?

“A filosofia tem uma fórmula antiga, que serve até de anetoda, para a felicidade: ‘FELICIDADE’ É IGUAL A ‘REALIDADE’ MENOS ‘EXPECTATIVAS’ “, descreve o filósofo Mário Cortella.

Captou a conta? Calcule novamente.

É uma equação aparentemente muito simples. Por um lado, a frase nos faz pensar o quanto a felicidade pode estar mais próxima da simplicidade do que imaginamos, mais ligada apenas ao essencial. Pode sugerir, ainda, que a felicidade está mais ao alcance de quem tem poucas expectativas – você nunca pensou, sobre alguém, “como ele pode ser feliz com tão pouco?”

A questão é que tanto as expectativas quanto o conceito de felicidade são relativos, e tudo isso varia muito, de contexto para contexto. E ao contrário do que pode parecer, é impossível vivermos sem expectativas, ou a vida não teria o menor sentido. Afinal de contas, quem é que está aqui para ter uma vida banal?!

Pois bem, no caso de uma criança, eu acredito piamente que a pior coisa que ela pode ter na vida é a baixa expectativa de seus pais ou educadores. Quem não espera que haja retorno, não investe. Quem não acredita, não se importa. Quem não espera que aprenda, não ensina. E aí sim não haverá resultado. Lembra do texto da Síndrome de Einstein?

Parênteses: é sempre bom lembrar que a palavra “expectativa” significa “situação de quem espera a ocorrência de algo, ou sua probabilidade de ocorrência, em determinado momento”. Não tem NADA a ver como esperar no sentido de não fazer nada para tal, apenas esperar que aconteça, ficar só na expectativa.

De onde menos se espera, daí é que não sai nada. Essa frase jocosa é uma máxima do Barão de Itararé, personagem do humorista Apparício Torelly (1895-1971). Mas de fato, se o professor não acredita no potencial do aluno, inevitavelmente vai se esforçar menos para que ele aprenda, conduta essa que trará um impacto negativo que acabará confirmando a (baixa) expectativa criada anteriormente.

No caso de nós, mães e pais, qual a dose certa para que a expectativa não passe dos limites e se transforme em ansiedade? Como dosá-la ao ponto de não tornar-se algo que boicota a felicidade?

Quando eu tive o Bruno, ouvi uma diversa gama de opiniões à medida em que contava para as pessoas sobre ele ter Síndrome de Down. Teve alguém que me disse: “…basta você ajustar suas expectativas…” Isso tanto me marcou que até hoje me faz refletir: veja bem, em primeiro lugar, que direito temos nós, mães e pais, de criar expectativas sobre alguém que ainda nem nasceu?! E que a partir do seu nascimento, terá vida própria?! Quer saber? Não me importa! Eu tenho e sempre tive as MELHORES expectativas com relação ao Bruno (e à Elisa também). Não acho que eu tenha o direito de IMPOR as minhas expectativas à vida dele, ou seja, ele é como é, e as escolhas serão SEMPRE dele, mas o meu papel é APOSTAR no menino, independente de ele ter Síndrome de Down. Ah, então ele vai frequentar a escola regular, se preparar para o mercado de trabalho? Vai ter que lidar com exigências mil? Vai precisar aprender a conviver com as regras sociais (chatas) impostas pela maneira que a nossa sociedade se organiza, e que a nossa geração pratica? Sim, sim, e sim! Simplesmente porque ele PODE aprender, ele PODE posicionar-se, ele é CAPAZ de ser o melhor que ele puder, DESDE QUE lhes sejam oferecidas as OPORTUNIDADES para tal. Ah, mas ele pode falhar… Oi? E quem não falha?! Voltando à fórmula do Cortella, então a probabilidade de eu me frustrar (e me distanciar da felicidade) é maior, porque minhas expectativas são enormes, e em muitos momentos poderá ser maior que a própria realidade? Sim, de fato, pode ser… A frustração é inevitável. Mas o medo dela não pode nos paralisar.

Conheço pessoas da área da educação, experientes, que já me relataram “não saber até onde ir com a criança com Síndrome de Down”. Então eu pergunto a elas: “até onde vocês vão com as crianças sem deficiência ou diagnóstico?” Creio eu que o papel do educador é ir até… o infinito! Afinal cada criança é única, e os seus limites não são, e não podem ser, aqueles que discretamente se escondem debaixo das nossas próprias expectativas. Como disse Rubem Alves, e bem lembrou a querida professora Priscila Lima, “o vôo já nasce dentro dos pássaros, e não pode ser ensinado, mas sim encorajado”.

A parte curiosa da coisa é que expectativa demais pode levar à ansiedade, e aqui em casa já percebi que, nessa hora, tudo trava. O Bruno às vezes tem, por exemplo, preguiça de comer. A Elisa tem também, e quando eu era pequena eu tinha muita (chegava a desejar que existisse um comprimido que pudesse ser engolido e tivesse a mesma função de um almoço). kkkkkk…. Sim, minha mãe sofria coitada. Então, o que acontece (ah, eu não tenho mais preguiça hoje em dia, infelizmente… rs…): na hora das refeições eu preciso controlar muito a minha expectativa – neste caso já aumentada para o nível de ansiedade, porque sei que a preguiça dele é inversamente proporcional ao meu desejo de que ele limpe o prato – porque quanto mais eu a demonstro, mais ele faz corpo mole, porque o bicho é sacana. Daí quando estou controlada e “desencanada” ao ponto de agir tão naturalmente quanto se não fosse preciso que ele comesse nada, então a coisa flui também naturalmente… Ele percebe a quilômetros a minha ansiedade! Por isso não é nada fácil: se baixa expectativa é mancada, em compensação, marcação cerrada é furada!

Difícil, né? Mas é o nosso desafio:

Suco

Era grande o risco do suco de laranja cair, mas ele queria muito fazer sozinho, e NÃO CAIU NENHUMA GOTA!

Patinete

O medo do patinete era grande, precisei insistir bastante tempo que ELE CONSEGUE para que ganhasse confiança, e realmente CONSEGUIU.

Mundo_Gloob

Passar pelos obstáculos da Lady Bug no Mundo Gloob… juro que fiquei achando que ele teria dificuldade, mas tirou de letra!!!

Flauta

Aprender a tocar flauta também já não é mais um tabu – é claro que o incentivo da irmã é sempre um grande diferencial.

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Muito além de “ter uma irmã”

O Bruno nasceu 2 anos e 3 meses depois da Elisa, e causou muito ciúmes na pequena, como já era previsto. Depois do primeiro mês, quando veio a notícia da Síndrome de Down, não foi fácil (aliás foi impossível) não prejudicá-la com uma ausência adicional da minha parte, dado o abalo psicológico e a agenda cheia de consultas médicas, pesquisas, inícios de terapias e tudo o mais… ufa, coitada! No dia em que completou 1 ano, o Bruno levou um empurrão tão forte que caiu pra trás feito um poste – ela não suportou o mimo todo (adicional) que ele estava recebendo naquele dia. Também foi episódio único, parece que ali ela despejou a raiva acumulada por 1 ano, e ficou aliviada, glória a Deus!

Passados 5 anos, ninguém precisa perguntar nada para que a Elisa demonstre, com toda a transparência e espontaneidade permitida pelos seus 7 anos, que o Bruno é o melhor presente da sua vida. Meu coração estufa de alegria quando vejo o quanto eles são felizes por terem um ao outro!

Já faz tempo que a Elisa percebe as limitações do Bruno. Mas só recentemente eu denominei pra ela que “ele tem Síndrome de Down”. Fui deixando fluir, na naturalidade da convivência entre eles, a noção de que cada um aprende as coisas no seu ritmo e do seu jeito. Acho que deu certo, porque ela encara a diversidade entre as pessoas de uma maneira MUITO natural (dentro do limite que sua infantil maturidade permite, é claro), e eu adoro isso. Talvez ela nem fosse diferente se não tivesse um irmão com deficiência intelectual (isso jamais saberemos), mas é nítido o quanto a Elisa gosta de apoiar, inserir e animar seus amigos. Esse ano recebeu uma colega estrangeira na classe do colégio, e já fez questão de se tornar sua melhor amiga para poder ensinar-lhe a nossa língua, costumes e tudo o mais. Ela inclusive expressa verbalmente que gosta de desafios, e de ajudar seus amigos. Eu confesso que fico orgulhosa como mãe,  não tem jeito.

Para o Bruno, Deus não poderia ter preparado nada que trouxesse mais amor, amizade e estímulo do que a Elisa lhe proporciona. E o mais legal é que a leveza da relação entre eles proporciona conquistas infinitamente maiores do que qualquer terapia, mediação ou intervenção realizada por um adulto, mesmo que da família (principalmente). Exemplo recente, aconteceu há menos de 4 horas: Bruno pega a tarefa de escola pra fazer, Elisa senta-se ao seu lado com uma folha em branco, e reproduz uma tarefa igualzinha para ela. Nada pode incentivá-lo mais, e ela fica toda cheia de orgulho do seu poder de persuasão, especialmente quando eu não consigo convencê-lo, por exemplo, a calçar seus próprios sapatos ou ir para o banho, mas ela vem com seu charme, cria uma estratégia e o sacana obedece 🙂

Aos meus dois filhos, muito obrigada por se completarem tanto. A Deus, minha eterna gratidão por fazer o melhor para nossas vidas, à Sua maneira, mesmo que isso quase sempre fuja à nossa compreensão.

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5 anos

Hoje o dia amanheceu especial: nosso príncipe completa 5 anos! Haveria tanto a dizer, que ninguém teria tempo de ler… Então apenas compartilho minha gratidão a Deus pela vida do Bruno, e resumo em 5 itens o que aprendemos nestes 5 anos:

1) Verdades absolutas devem ser questionadas, e as que estiverem pesando demais na bagagem da vida, devem ser desaprendidas, pois TUDO tem dois (ou mais) lados sempre, e você só chega ao EQUILÍBRIO passando primeiro pelas contradições;

2) A falta de amor pode acabar com a vida de um filho, mas o seu excesso pode atrapalhar, e caso você tenha um filho malandro, algumas vezes vai precisar FINGIR que não se importa com ele;

3) Quase sempre a sociedade (e portanto nós todos) usamos a palavra “normal” para situações onde o correto seria usar o termo “comum”, pois o normal é sempre relativo;

4) Educar um filho é uma tarefa assustadoramente desafiadora, que exige muita paciência, mas não apenas isso; requer também resiliência, persistência, muita disposição e uma boa dose de criatividade, sendo que não é pecado deixar-se vencer pela exaustão algumas vezes;

5) E por último, aprendemos que é impossível controlar o seu destino, o que não significa que você não deve fazer planos e ter objetivos, pois o que está escrito vai acontecer e tem uma razão de ser, mas COMO você vai viver essa história é uma escolha só sua.

FELIZ ANIVERSÁRIO AO BRUNO!

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Seu filho tem tempo?

Tempo… Prá quê te quero?!

Eis a máxima do momento: “eu não tenho tempo”. O mundo tem pressa.

Mas, quem tem filho sabe como funciona o relógio da criança. Nele, o dia tem 24 horas, sim. E a hora, 60 minutos. Cada minuto, 60 segundos. Mesmo assim, muita criança infelizmente não tem tempo disponível para conquistar sua autonomia.

Quando seu filho nasce com Síndrome de Down, ou qualquer outra deficiência que altere um pouco o seu ritmo de aprendizagem, logo você começa a prestar atenção neste processo de ganho da autonomia – algo que nós, pais, muito aspiramos para nossos filhos! Investimos pesado nesse assunto!

Pois bem.

Mas… quando alguém faz uma pergunta para seu filho (que está aprendendo a falar), você dá para ele o tempo que ele precisa para responder? (seja como for o jeito que ele vai responder). Ou vai logo respondendo por ele? O mundo não tem esse tempo disponível, isso é nítido. Mas, pelo menos na sua casa, ou naquilo que depender de você, seu filho tem esse tempo?

Saber tirar e vestir a roupa sozinho(a), comer, ir ao banheiro ou escovar os dentes com cada vez menos ajuda, são tarefas que costumam retratar o processo de ganho da autonomia de uma criança, concorda? Nossa…! Mas como isso toma tempo! Fazer por ele é BEM mais rápido do que ensinar, e deixar errar, e tentar de novo! Aqui em casa (acho que na sua também) temos horário para tudo…! Inclusive para as terapias e para a escola – onde ele vai justamente pra aprender a ser independente (dentre outras coisas, claro). Que contradição…!

Agora eu pergunto: faz sentido você ficar pagando Terapia Ocupacional para o seu filho, se em casa, nas mais simples tarefas do dia-a-dia, tem alguém fazendo por ele, pra poder ir mais rápido e cumprir o horário?! É óbvio que não! Agora, eu quero ver a gente ter PACIÊNCIA para não apenas ESPERAR que ele faça, mas sim OFERECER a ele o tempo e a orientação (na medida) que ele precisa para adquirir, aos poucos (sim), a tão almejada autonomia. (E isso serve também para as crianças “sem” deficiência, que não fazem TO etc, ok?)

Porque parece bem simples, né? Só que eu fico lembrando das cenas… rs… e começo a rir sozinha de nós mesmos…rs… Porque a gente aprende a focar isso, vai incentivando a criança a fazer tudo sozinha o tempo todo, e daí chega uma hora em que ele compra a ideia:

Começa a querer fechar o cinto da cadeirinha do carro, sozinho... (tarefinha chata que muito adulto ainda não aprendeu)

Começa a querer fechar o cinto da cadeirinha do carro, sozinho… (tarefinha chata que muito adulto ainda não aprendeu)

Ou então invoca de colocar a touca de natação, de silicone – que eu apanho pra colocar em mim mesma até hoje!

Ou então invoca de colocar a touca de natação, de silicone – que eu apanho pra colocar em mim mesma até hoje!

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Aí não tem jeito, é respirar fundo e buscar aquela última gota de paciência, lá no fundo, pra conseguir convencê-lo de que você só vai AJUDAR, não porque “ele não consegue”, mas porque é algo difícil dele fazer sozinho, por enquanto.

Uma coisa é certa: VALE A PENA cultivar essa sede por independência. É ela que não vai deixá-lo desistir facilmente, cada vez que a galera passar atropelando.

É essa quase “obsessão” que vai garantir, em tantos momentos, o retrato da pura felicidade, quando o sorriso diz apenas: “Sim, Eu Chego Lá, veja só”!

Bruno quase explodindo de felicidade porque ficou sozinho em cima do cavalo.

Bruno quase explodindo de felicidade porque ficou sozinho em cima do cavalo.

Bruno delirando porque o primo deixou que ele tocasse o teclado sozinho

Bruno delirando porque o primo deixou que ele tocasse o teclado sozinho

É como se ele dissesse: “espere por mim que vale a pena”.

“Eu chego lá sim – acerte a direção do vento e você vai ver que nada me segura!”

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Viver é Aprender

Semana passada tive o privilégio de participar, mesmo que apenas um dia, do 4º Fórum Internacional de Síndrome de Down, realizado pela Fundação Síndrome de Down de Campinas.

Entre informações novas e outras já conhecidas que foram reforçadas em novos contextos, encontrei fôlego para renovar as crenças em tantas possibilidades que cercam a vida do Bruno, e de todas as demais pessoas com Síndrome de Down.

Compartilho aqui no blog os destaques que considero mais úteis e relevantes:

Palestrante: Beatriz Gárvia – Psicóloga da Fundação Catalana (Espanha) – FANTÁSTICA!

  • É muito importante que se tenha um projeto de futuro para a criança que nasce com a SD (como qualquer outra), e nisso seja investido apoio e motivação.
  • Trata-se de mudar o olhar, tirando-o da Síndrome e levando-o para a pessoa completa.
  • “Essas crianças” não existem, e sim “o seu filho”.
  • Ao nascimento, no primeiro momento, o mais importante é o vínculo, e não grandes intervenções, exceto se houver algum problema de saúde que as exija.
  • Para que se estabeleça e se cultive o vínculo, é sempre importante saber esperar as respostas da criança (sejam elas verbais ou não) – saber “ouvir” e entender a outra pessoa.
  • A superproteção impede que a pessoa se estabeleça como indivíduo capaz de fazer escolhas e tomar decisões (desde os primeiros anos de vida).
  • Ao nascimento, é necessário dar apoio aos pais, que precisam passar por várias etapas até se adaptarem a esta nova realidade: negação, emoções ambivalentes, tristeza e finalmente a aceitação – eles precisam se permitir a todos estes sentimentos.
  • A criança é “um dos” membros da família; a síndrome não deve ocupar tanto espaço mental.
  • É sempre importante perguntar, em diversas situações: “o que eu faria se ele não tivesse a síndrome?”, para que seja permitido à criança que se descubra, e assim seja trabalhada a construção da identidade, favorecendo a saúde mental, física e social.
  • Em determinado momento (se possível antes da adolescência, porque nesta idade já ocorre uma crise de identidade), é importante que a pessoa tome consciência da sua síndrome, e saiba que tem capacidades e dificuldades, e muitas dessas dificuldades advém de um elemento externo (a Síndrome de Down), e não porque ela é pior que outras pessoas. Por exemplo, se a criança rasga o desenho do amigo – ela pode estar fazendo isso porque não consegue fazer um desenho ela mesma. É importante que ela entenda que essa “descapacidade” está relacionada a um elemento externo – a SD. Até porque todo ser humano tem necessidade de normalização / padronização.
  • O grau de dificuldade enfrentado por cada pessoa tem a ver tanto com a síndrome quanto com o grau de superproteção com que é tratada.
  • O universo da criança forma-se a partir de 3 elementos básicos: família, escola e brincadeiras. Com as brincadeiras as crianças aprendem a simbolizar, imitar a realidade, e desenvolvem a criatividade, especialmente com as brincadeiras de “faz de conta”.
  • Importância do estímulo à autonomia: seu filho toma banho sozinho? Ah não, porque ele pode cair… pode não se lavar direito… Se você não assumir o risco, não haverá autonomia. Ele precisa desenvolver a confiança em si próprio, e para isso precisa de tarefas, responsabilidades e consequências.
Hoje estou inspirado nos preparativos para ir pra cama ;)

Hoje estou inspirado nos preparativos para ir pra cama 😉

  • Na escola, as professoras não podem permitir a superproteção das meninas, que já nascem com um instinto materno e estão repletas de boas intenções, mas dificultam o desenvolvimento da autonomia.
  • Bruno e sua querida irmã Elisa
    Bruno e sua querida irmã Elisa

    No caso dos irmãos: cada filho tem que ocupar o seu lugar na família, e os irmãos devem estar informados sobre a SD, logicamente no momento certo, e com toda a naturalidade – ou seja, conforme faz perguntas, você responde o mais natural e honestamente possível.

Mensagem final: “não deixe que o seu medo sejam as grades que me impedem de conhecer o mundo por mim mesmo”.

Palestrante 2: Alfredo Jerusalinsky – Doutor em Educação e Desenvolvimento Humano (USP) – CATEDRÁTICO! Vale a pena pesquisar sua bibliografia

  • Todo ser humano funciona em 3 registros: real, simbólico e imaginário.
  • Os eletrônicos e aplicativos em telas não favorecem em nada o desenvolvimento desses “registros”. Todos os aplicativos são concebidos para funcionarem mediante 5 a 12 comandos, no máximo, e dão uma ilusão de inteligência. O seu uso contraria os 3 registros, e especialmente até os 4 anos, são totalmente contraindicados.
  • Relação da Síndrome de Down com o Autismo: as pesquisas mais recentes indicam que de todas as variáveis genéticas que predispõem ao Autismo, nenhuma envolve o cromossomo 21. Portanto, os sintomas que aparecem são provocados pela ausência de tratamento e trabalho terapêutico, e não geneticamente. Ou seja, o indivíduo nasce com a SD (algo que já dificulta a interação social, por exemplo, pelas próprias descapacidades envolvidas), e passa a ser deixado de lado, isolado, sem estímulos, naturalmente vai desenvolver comportamentos ligados aos sintomas do Autismo, mas foi algo provocado pela sua condição de vida, e não pela genética.
  • Em relação à linguagem: a voz e o olhar são os primeiros elementos para o desenvolvimento da linguagem, logo após o nascimento. A linguagem envolve 3 aspectos: verbal, gestual e situacional, todos igualmente importantes, sendo a verbal a última a surgir.

Palestrante 3: Martinha Clarete Dutra – Diretora de Políticas de Educação Especial do Ministério da Educação – MEC – MUITO ENTENDIDA DO ASSUNTO!!!

  • Toda a legislação atual brasileira define que as crianças até 3 anos de idade devem frequentar a creche comum opcionalmente, e a partir de 2009, a Emenda Constitucional nº 59 definiu como obrigatória a matrícula de crianças (com e sem deficiência) a partir de 4 anos na escola.
Primeira vez que o Bruno desenhou sozinho a mamãe ;)

Primeira vez que o Bruno desenhou sozinho a mamãe 😉

  • A Constituição de 1988 já definiu que “O direito à educação é incondicional, e ninguém deve ser usurpado desse direito”. Seu artigo 208 define que deve haver atendimento especializado para pessoas com deficiência.
  • Todas as escolas públicas e particulares devem atender à Norma Constitucional, segundo a qual devem transformar seus sistemas educacionais em sistemas educacionais inclusivos.
  • Onde entra a Educação Especial? Ela é responsável por identificar as barreiras existentes no sistema educacional, para cada indivíduo, e propor formas de eliminação dessas barreiras, por meio da oferta de recursos de acessibilidade a todos os alunos.
  • A escolas públicas e particulares são obrigadas, por lei, a oferecer AEE – Atendimento Educacional Especializado, no contraturno dos alunos com deficiência. No caso das escolas públicas, o FUNDEB tem um fator de ponderação maior conforme matrículas de crianças com deficiência.
  • A construção desse cenário deve ser de todos, inclusive da sociedade.
  • Grande desafio: dar condições de atendimento educacional sujeito a sujeito, sem que seja implantada uma “escola especial” dentro da escola comum.
  • A legislação atual também prevê multa aos gestores que recusarem a matrícula de aluno com deficiência na rede de ensino pública ou privada.

* Todas as leis que definem essas normas estão disponíveis no site do MEC.

Palestrante 4: Maria Teresa Mantoan – Doutora em Educação e Consultora da Fundação Síndrome de Down de Campinas

  • A “escola para todos” não tem tanto segredo assim, mas altera a forma de olhar para todas as crianças, incluindo as com deficiência.
  • A lei garante acesso e permanência das crianças com SD na escola regular, e precisamos trabalhar para garantir sua participação com ganhos no processo escolar.
  • “Armadilha da Inclusão”: desconsiderar as diferenças e tratar todos igualmente esconde as especificidades. Mas enfatizar as diferenças pode excluir do mesmo modo (ex. lei de cotas, etc).
  • Ensinar é um comprometimento muito maior com o conhecimento do que com a execução da tarefa do jeito que eu quero.

Palestrante 5: Angela Ferraz – Coordenadora Pedagógica do Núcleo de Educação Especial (SME) de Campinas.

  • Papel do AEE – Atendimento Educacional Especializado: estudar o caso e identificar as barreiras. Fazer um Plano Individual de Atendimento. Implementar recursos que favoreçam o aprendizado, e que devem estar disponíveis para todos os alunos, enriquecendo as práticas de ensino e aprendizagem para toda a turma – por exemplo quando se constrói uma rampa de acessibilidade – todos usam a rampa, e não apenas os cadeirantes.

Palestrante 6: Fábio Adiron, pai do Samuel, hoje com 17 anos  – depoimento sobre sua experiência

  • Trajetória baseada no Projeto Roma.
  • Opção por investir no que ele tem de bom ao invés de correr atrás das “deficiências” – explorar o potencial em oposição ao enfoque deficitário.
  • É necessário ter certeza de que toda pessoa pode aprender e o professor tem que encontrar maneiras de ensiná-la.
  • O Samuel estudou até hoje sem adaptação de conteúdo, mas sim de volume (ao invés de 20 questões, para ele são 10, por exemplo, etc).
  • Importância de um mediador de contextos – que observa como a criança aprende para estabelecer os caminhos junto com a escola.
  • Estímulo constante à leitura e escrita – o Samuel aprendeu a ler no final da educação infantil, e foi o orador da turma.
  • Dificuldade principal do Fundamental II: vários professores.
  • Algumas  mudanças foram implantadas para todos os alunos da sua turma: tempo maior para fazer as provas (com o objetivo de avaliar o conteúdo e não a velocidade), avaliação em formatos desiguais (prova oral, por exemplo).
  • Pedras do caminho: não há uma receita pronta; os professores muitas vezes são muito “bonzinhos”; a superproteção dos colegas; o comportamento de adolescente “versus” a hora de encarar o Fundamental II.
  • Dicas do Fábio: participação constante da família; procurar uma escola que acredite que todos aprendem (independente do método que utiliza, mas que tenha atitude de ensinar para todos); garantir que em outros contextos a criança não seja tratada como “café com leite”; propor objetivos além da capacidade (o aprendizado precede o desenvolvimento).
Vamos nessa??? Mãos à obra!

Vamos nessa??? Mãos à obra!

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