Uma escola para TODOS

“Isso mesmo, em caixa alta e sem vírgula depois!”, enfatiza Meire Cavalcante sobre o tema da sua palestra. A convite do Espaço Pipa, ela esteve em Piracicaba para uma provocante e intensa palestra sobre Práticas Pedagógicas Inclusivas, para as professoras do ensino municipal. A Meire trabalha na OSCIP Mais Diferenças, e presta assessoria ao Ministério da Educação e outros órgãos governamentais na área de educação inclusiva.

O que eu mais gostei na Meire é que com ela não tem meio termo, e é muito gostoso ouvir gente convicta falar. Ela não admite que a verdadeira ESCOLA se permita não incluir pessoas com deficiências. Até porque está na Constituição Federal que a educação é direito de todos. A lei indica o ensino regular, e não cita qualquer exceção. E para não ficar dúvida, a Política de Educação Inclusiva do MEC (de 2008) explica que o AEE (Atendimento Educacional Especializado), citado pela Constituição como preferencialmente oferecido pela rede pública de ensino (quando necessário), tem caráter suplementar e complementar, e portanto, não é substitutivo à educação regular, e por isso é oferecido no contraturno da escola.

Também foi bom participar da palestra porque não se trata de ouvir a opinião de alguém que “acha certo” fazer inclusão, e pegar a onda. A Meire estuda e trabalha esse tema há muitos anos, e por isso quem participou aprendeu muita coisa. Apesar de tantas escolas ainda estarem engatinhando na inclusão, ela demonstrou como a situação vem evoluindo historicamente, e fez um comparativo interessante: da mesma forma que antigamente as mulheres não iam à escola porque eram consideradas “intelectualmente inferiores” e isso é nitidamente absurdo hoje em dia, daqui a 10 ou 15 anos vamos achar ridículo ter que lutar pela inclusão de pessoas com deficiências no ensino regular.

Mas o auditório estava lotado de professoras, e portanto, gente que sente na pele que fazer a inclusão não é nada fácil. A Meire também sabe que não é, e por isso apresentou os FUNDAMENTOS DA INCLUSÃO ESCOLAR:

1)      Premissa básica: todos aprendem. É obrigação da escola colocar o aluno para trabalhar, dentro da sua capacidade. “Se o meu aluno é assim, então, que aula eu vou dar?” É dessa forma que a Meire convida o professor a pensar, deixando do lado de fora da sala os rótulos e preconceitos. Afinal, que outras características esta pessoa, este aluno com deficiência tem, além da deficiência?

2)      Não é o aluno que precisa se adaptar à escola, e sim o contrário. Afinal de contas, ela existe para ENSINAR. Basta que a escola tire o foco do que o aluno NÃO CONSEGUE fazer (em relação às suas expectativas), e se pergunte: “o que a escola ainda não está oferecendo para que ele aprenda? Para que TODOS aprendam?”

3)      Flexibilizar sim, adaptar não. A Meire não aceita que o professor passe um trabalho para a classe, e outro mediocrizado para o aluno com deficiência (tipo um jogo de matemática versus um desenho). Ela considera que usando esse tipo de “adaptação” o professor está, ele mesmo, definindo previamente até onde aquele aluno pode chegar, e isso não cabe a ninguém, é uma descoberta do próprio aluno. O conteúdo, portanto, tem que ser o mesmo, e a escola tem que usar a devida habilidade para flexibilizar o método de ensino daquele conteúdo, mudando algumas técnicas e garantindo que todos aprendam.

Escola_para_todos4)      Aprendizagem cooperativa. A Meire exemplifica esse item citando a forma de posicionamento das carteiras escolares. Se todas as séries mantivessem o formato de mesas em grupos, que é usado na educação infantil, alunos que estão em diferentes níveis de aprendizado poderiam aprender uns com outros, ao invés de ficarem simplesmente olhando para as nucas da frente, como acontece com as carteiras enfileiradas, o que dificulta muito a atenção.

5)      Mediar as brincadeiras. Na fase da infância, a criança aprende brincando, e a Meire considera que algumas crianças com deficiência podem não saber brincar, naturalmente, como acontece com as demais, e por isso o professor tem que buscar inserir essas crianças nas brincadeiras e despertar nelas esse processo.

6)      Usar diferentes linguagens. Achei bárbaro o exemplo do Caíque, que é cego, e a professora tem o hábito de contar quantos alunos vieram à aula, na hora da chamada. Para que o Caíque também pudesse participar da atividade, ela adicionou palitos de sorvetes à dinâmica, e distribuiu uma boa quantidade deles para cada aluno. E assim, ao invés de contar os amigos apenas visualmente, a classe diz o nome de cada colega, e para cada um deles o aluno vai separando um palito, inclusive o Caíque. Ao final, é possível que TODOS contem os seus palitos e descubram quantos alunos vieram à aula. Simples assim.

7)      Na avaliação, a Meire indica que se compare cada aluno com ele mesmo, mensurando sua evolução num determinado período, em todos os aspectos possíveis.

8)      Deixar que o aluno mostre o que ele sabe. Às vezes a escola tenta “despejar” um conteúdo “X” na turma, e esquece de praticar um método de ensino que valorize o que cada aluno traz de útil para ser compartilhado. De repente, aquela habilidade ou afinidade que o aluno apresenta é justamente a janela por onde pode entrar o que o professor está tentando ensinar!

Bom, a verdade é que eu não sou pedagoga, e como mãe eu não tinha como não gostar da palestra. Mas tenho certeza que para muitos professores que participaram, essas dicas são muito úteis para o aprendizado de todos os alunos, não apenas daqueles com alguma deficiência aparente. Até porque, como bem disse o vereador André Bandeira na abertura do evento, “muitas coisas limitam as pessoas e a nossa sociedade, algumas delas bem piores que uma cadeira de rodas, ou uma síndrome genética”.

Quem aí não tem alguma dificuldade, e gosta de ser valorizado e considerado capaz, não é mesmo?

A Secretária de Educação do Município, Angela Correa, também participou da abertura, e eu gostei quando ela disse da importância do tripé “Família / escola / demais envolvidos na educação da criança”, para que a inclusão ocorra em sua plenitude. Eu estou 100% de acordo,  porque acredito que SEMPRE a educação começa em casa, e é a família que faz a criança acreditar, em primeira instância, que ela é capaz, que ela pode, que ela é amada e digna de uma educação de qualidade. Também é a família que reforça na criança a sua responsabilidade por aprender.

Sim, tudo isso dá muito trabalho. Mas vale a pena. Principalmente quando temos uma família unida, e encontramos pelo caminho profissionais sérios, competentes e dedicados – no nosso caso, meus pais, as terapeutas que cuidam do Bruno, e a equipe da escola Nosso Ninho, que têm sido grandes parceiros na educação do nosso pequeno. Se vocês estiverem lendo, aproveito para dizer: “Obrigada, gente!”

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7 respostas para Uma escola para TODOS

  1. Luciana você é uma mãe especial pois procura se informar em todos os sentidos para não faltar nada ao Bruno no seu desenvolvimento e ele é inteligente que entende tudo, ´nos como avós fazemos com muito amor, não podemos esquecer da tatá que ele gosta muito e ela tem um carinho especial por ele, que o agrada sempre, meu fofinho ela fala., assim tudo dará certo.

  2. Realmente foi uma palestra muito boa, com muitos exemplos de “Práticas Pedagógicas verdadeiramente Inclusivas”.

  3. Amália disse:

    Muito bom! Daqui de longe aprendendo mais…parabéns!
    Vc tem o contato dessa Meire?

  4. Jenny disse:

    O meu filho Rafael nasceu dia 10 de março com SD. Descobrimos aos 5 meses de gravidez , ou seja, tivemos 4 meses para nos acostumar com a idéia e preparar sua chegada. Nesse periodo eu me viciei em pesquisar sobre a SD na internet, conheci muitas historias, muitos sites, grupos etc… quando o Rafael nasceu eu estava eufórica, muito entusiasmada e acreditando que tudo iria dar certo. Mas agora, aos 3 meses e 7 dias me encontro aqui desanimada, triste, não sei o que aconteceu com aquele otimismo que me acompanhou sempre. Gostaria muito de conversar por email: jennywdj@hotmail.com. Se for possível.

  5. jenny disse:

    Reevie a msg, pois mexendo no celular perdi teu email. Jenny mãe do Rafael.

  6. Como eu precisava ler isso, temos debatido muito esse tema na Associação que faço parte (www.cidown.com.br) Obrigado pelo texto excelente.
    Murillo
    www,meufilhotemdown.com

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