Desintoxique-se do preconceito

Preconceito…

Eu acho que nunca escrevi sobre isso neste blog. Até porque tento viver como se o preconceito não existisse, como estratégia de resistência a ele.

Só que hoje me coloquei na pele dessa mãe, e não consegui guardar para mim a indignação com a resposta que ela recebeu da escola onde pensava em matricular sua filha, que tem Síndrome de Down:

Anglo1Quem vê de fora, num primeiro momento pode até sentir-se “tentado” a concordar com esse “conselho” de procurar “linhas pedagógicas mais flexíveis”… Ora, é para o próprio bem da menina – completariam!

Afinal, é claro que “é necessário que em primeiro lugar os alunos se sintam bem adaptados e encorajados a participar da vida escolar”, quanto a isso não há dúvidas. MAS: como alcançarão esta adaptação e esta coragem, longe dali?!

Se a escola é “exigente demais”, será que ela não está sendo “exigente demais”?!?!?

E ainda admite “não auxiliar alunos que necessitam de inclusão”. Por fim, tem coragem de falar em “responsabilidade”…!

Eu gostaria muito, mesmo, de continuar acreditando que o preconceito está alicerçado no desconhecimento, na desinformação. Mas exemplos como este diagnosticam sua relação íntima com o desinteresse, a má vontade e o descaso. Qualquer escola (que se preze) deveria ter vergonha de não cumprir a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, de 2008, atualmente em vigor com valor de norma constitucional, que determina que todos os alunos com deficiência têm direito a estudar em escola regular.

Sim, eu sei que por ser particular, essa escola sente-se no direito de “escolher” seus alunos. Esse é um erro bem grosseiro: confundir interesses comerciais com os educacionais.

O mais curioso é que, quando comecei a rascunhar esse post na minha cabeça, entre umas horas de estrada e umas noites mal dormidas, pensava em descrever a experiência de uma outra mãe. Esta, ao ligar para outra escola pedindo uma visita, encontrou uma certa dificuldade, e tentou reforçar a necessidade de diálogo direto com a coordenadora pelo fato de seu filho ter Síndrome de Down. Ela precisou resistir ao boçal argumento da secretária: “Olha, é melhor você esperar mais um pouco, porque aqui nós não teremos uma auxiliar só para ele, apenas a auxiliar da classe…” Ai, socorro…! Felizmente, essa mãe conseguiu ignorar a tentativa da moça de livrar-se dela, explicou breve mas incisivamente que seu filho não precisava de uma auxiliar, e depois de agendar a tal visita, percebeu que a coordenação da escola e sua filosofia não correspondiam à atitude superficial daquela infeliz secretária – pelo menos ao que parece.

Eu estava animada com este exemplo, porque demonstra que não podemos deixar que o preconceito limite as chances que desejamos oferecer aos nossos filhos, e que suportá-lo muitas vezes vai doer, mas tem que fazer parte do dia-a-dia, porque combatê-lo é nossa obrigação…  Afinal, somos todos seres humanos, egocêntricos e invariavelmente preconceituosos, em diversos assuntos e aspectos, desde políticos até raciais, religiosos e outros mais. É intrínseco ao ser humano procurar seu semelhante, juntar-se aos parecidos, aproximar-se de seus afins. Mas isso não pode significar o desprezo, a indiferença e o descaso para com o diferente. Se qualquer um de nós quer um mundo mais justo, humano e sustentável em todas as esferas, tem que começar olhando para si mesmo e buscando livrar-se dos seus preconceitos, das suas opiniões pré-estabelecidas e desprovidas de fundamentos reais. Interessar-se pelo outro, exercitar a empatia (colocar-se no lugar do próximo), e permitir dividir o seu espaço e o seu tempo com alguém diferente de você, pode parecer algo simples, mas isso é o início da desintoxicação do preconceito, hoje enraizado num mundo severamente competitivo e racional.

Quando todos nós formos capazes de levar essa tarefa a sério, essa escola vai enviar outro e-mail para a mãe da Laura, convidando a pequena para estudar lá. Nesse dia, ela desejará, de fato, cumprir o papel a que se propõe: educar, aprender, e existir, de verdade, como escola.

O Bruno com seus amigos durante homenagem aos pais na escola. Super Heróis aprendendo a construir um mundo com menos preconceito!

O Bruno com seus amigos durante homenagem aos pais na escola. Super Heróis aprendendo a construir um mundo com menos preconceito!

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6 respostas para Desintoxique-se do preconceito

  1. Pingback: Depoimento: Desintoxique-se do preconceito - Movimento Down | Movimento Down

  2. thayane sales disse:

    Foram muito bem colocadas suas palavras. Tbm sofri preconceito quando tentei matricular meu filho Jorginho de 4 anos em uma escola sabe aquele jeito q eles fazem p nao dizer diretamente q nao querem aquele aluno eles dizem q “talvez nao seja o melhor momento” q ” a escola tem q fazer uma analize da crianca p ver se tem como ela ficar” ainda tiveram coragem de me dizer q poderia ser pedido a mim p retirar a crianca da escola em qualquer periodo do ano caso eles achassem conveniente. Oq dizer sobre isso desencorajador p qualquer mae. Fiquei tao amedrontada c esse preconceito q tive medo de colocalo p estudar medo q ele sofresse preconceito na escola longe dos meus olhos. Mas hj vejo q nos devemos lutar pela inclusao pois se nos nao vizermos outros nao irao fazer. Nao quero excluir meu filho de uma escola regular nem de uma vida comum pois se quero dizer q ele e normal tenho q agir de igual maneira. Vamos continuar lutando prq ser diferente e normal!!! Happy down!!!!!

  3. O preconceito é um veneno, que mata lentamente a doçura, a humanidade e a lucidez de quem o destila.

    O preconceito é um motor, que impulsiona a seguir em frente, com dignidade, aquele que o recebe.

    Entendo o preconceito como a maneira mais perversa e irracional de enxergar e de tratar o próximo. Pobreza de espírito em estado bruto. O bruto descaso com o sentimento alheio. A manifestação da ignorância travestida de suposta superioridade.

    Que reconheçamos em nós mesmos a pequenez, a verdade absoluta de que todos estamos aqui para aprender, para crescer, para fazer o melhor que pudermos. E que o fim de todos é o mesmíssimo.

    Que tenhamos sabedoria para perceber que nada nos faz melhor que o outro. Nada.

    É, eu sei, não é fácil. Trata-se de um exercício constante. Uma vigília até. Mas o simples exercício já nos diferencia das pessoas medíocres.

  4. Wagner disse:

    Amei sua pagina!!!! Meu filho tem sinais e suspeita de down e tenha buscado muita informação e achei esta pagina. Quero agradecer por compartilhar o dia-a-dia do Bruno e dizer que o quanto bem tem me feito e até ter idéias para uma vida melhor. Fique com Deus!

    • Mãe de Dois disse:

      Que bom, Wagner! A função deste blog é justamente esta: compartilhar informações e conquistas que desmitifiquem a síndrome de down e ajudem outros pais nessa empreitada! Por isso seu comentário muito me alegra. Felicidades a você e sua família!

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