Como andam as nossas expectativas?

“A filosofia tem uma fórmula antiga, que serve até de anetoda, para a felicidade: ‘FELICIDADE’ É IGUAL A ‘REALIDADE’ MENOS ‘EXPECTATIVAS’ “, descreve o filósofo Mário Cortella.

Captou a conta? Calcule novamente.

É uma equação aparentemente muito simples. Por um lado, a frase nos faz pensar o quanto a felicidade pode estar mais próxima da simplicidade do que imaginamos, mais ligada apenas ao essencial. Pode sugerir, ainda, que a felicidade está mais ao alcance de quem tem poucas expectativas – você nunca pensou, sobre alguém, “como ele pode ser feliz com tão pouco?”

A questão é que tanto as expectativas quanto o conceito de felicidade são relativos, e tudo isso varia muito, de contexto para contexto. E ao contrário do que pode parecer, é impossível vivermos sem expectativas, ou a vida não teria o menor sentido. Afinal de contas, quem é que está aqui para ter uma vida banal?!

Pois bem, no caso de uma criança, eu acredito piamente que a pior coisa que ela pode ter na vida é a baixa expectativa de seus pais ou educadores. Quem não espera que haja retorno, não investe. Quem não acredita, não se importa. Quem não espera que aprenda, não ensina. E aí sim não haverá resultado. Lembra do texto da Síndrome de Einstein?

Parênteses: é sempre bom lembrar que a palavra “expectativa” significa “situação de quem espera a ocorrência de algo, ou sua probabilidade de ocorrência, em determinado momento”. Não tem NADA a ver como esperar no sentido de não fazer nada para tal, apenas esperar que aconteça, ficar só na expectativa.

De onde menos se espera, daí é que não sai nada. Essa frase jocosa é uma máxima do Barão de Itararé, personagem do humorista Apparício Torelly (1895-1971). Mas de fato, se o professor não acredita no potencial do aluno, inevitavelmente vai se esforçar menos para que ele aprenda, conduta essa que trará um impacto negativo que acabará confirmando a (baixa) expectativa criada anteriormente.

No caso de nós, mães e pais, qual a dose certa para que a expectativa não passe dos limites e se transforme em ansiedade? Como dosá-la ao ponto de não tornar-se algo que boicota a felicidade?

Quando eu tive o Bruno, ouvi uma diversa gama de opiniões à medida em que contava para as pessoas sobre ele ter Síndrome de Down. Teve alguém que me disse: “…basta você ajustar suas expectativas…” Isso tanto me marcou que até hoje me faz refletir: veja bem, em primeiro lugar, que direito temos nós, mães e pais, de criar expectativas sobre alguém que ainda nem nasceu?! E que a partir do seu nascimento, terá vida própria?! Quer saber? Não me importa! Eu tenho e sempre tive as MELHORES expectativas com relação ao Bruno (e à Elisa também). Não acho que eu tenha o direito de IMPOR as minhas expectativas à vida dele, ou seja, ele é como é, e as escolhas serão SEMPRE dele, mas o meu papel é APOSTAR no menino, independente de ele ter Síndrome de Down. Ah, então ele vai frequentar a escola regular, se preparar para o mercado de trabalho? Vai ter que lidar com exigências mil? Vai precisar aprender a conviver com as regras sociais (chatas) impostas pela maneira que a nossa sociedade se organiza, e que a nossa geração pratica? Sim, sim, e sim! Simplesmente porque ele PODE aprender, ele PODE posicionar-se, ele é CAPAZ de ser o melhor que ele puder, DESDE QUE lhes sejam oferecidas as OPORTUNIDADES para tal. Ah, mas ele pode falhar… Oi? E quem não falha?! Voltando à fórmula do Cortella, então a probabilidade de eu me frustrar (e me distanciar da felicidade) é maior, porque minhas expectativas são enormes, e em muitos momentos poderá ser maior que a própria realidade? Sim, de fato, pode ser… A frustração é inevitável. Mas o medo dela não pode nos paralisar.

Conheço pessoas da área da educação, experientes, que já me relataram “não saber até onde ir com a criança com Síndrome de Down”. Então eu pergunto a elas: “até onde vocês vão com as crianças sem deficiência ou diagnóstico?” Creio eu que o papel do educador é ir até… o infinito! Afinal cada criança é única, e os seus limites não são, e não podem ser, aqueles que discretamente se escondem debaixo das nossas próprias expectativas. Como disse Rubem Alves, e bem lembrou a querida professora Priscila Lima, “o vôo já nasce dentro dos pássaros, e não pode ser ensinado, mas sim encorajado”.

A parte curiosa da coisa é que expectativa demais pode levar à ansiedade, e aqui em casa já percebi que, nessa hora, tudo trava. O Bruno às vezes tem, por exemplo, preguiça de comer. A Elisa tem também, e quando eu era pequena eu tinha muita (chegava a desejar que existisse um comprimido que pudesse ser engolido e tivesse a mesma função de um almoço). kkkkkk…. Sim, minha mãe sofria coitada. Então, o que acontece (ah, eu não tenho mais preguiça hoje em dia, infelizmente… rs…): na hora das refeições eu preciso controlar muito a minha expectativa – neste caso já aumentada para o nível de ansiedade, porque sei que a preguiça dele é inversamente proporcional ao meu desejo de que ele limpe o prato – porque quanto mais eu a demonstro, mais ele faz corpo mole, porque o bicho é sacana. Daí quando estou controlada e “desencanada” ao ponto de agir tão naturalmente quanto se não fosse preciso que ele comesse nada, então a coisa flui também naturalmente… Ele percebe a quilômetros a minha ansiedade! Por isso não é nada fácil: se baixa expectativa é mancada, em compensação, marcação cerrada é furada!

Difícil, né? Mas é o nosso desafio:

Suco

Era grande o risco do suco de laranja cair, mas ele queria muito fazer sozinho, e NÃO CAIU NENHUMA GOTA!

Patinete

O medo do patinete era grande, precisei insistir bastante tempo que ELE CONSEGUE para que ganhasse confiança, e realmente CONSEGUIU.

Mundo_Gloob

Passar pelos obstáculos da Lady Bug no Mundo Gloob… juro que fiquei achando que ele teria dificuldade, mas tirou de letra!!!

Flauta

Aprender a tocar flauta também já não é mais um tabu – é claro que o incentivo da irmã é sempre um grande diferencial.

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3 respostas para Como andam as nossas expectativas?

  1. Leandra Pires disse:

    Muito bom teu texto. Vai ajudar muitas mães e profissionais. Amei!

  2. Lu Dias disse:

    Parabéns, Bruno!!! 🙂 :*

  3. Confesso que me vi escrevendo estas palavras!
    Quando o Murilo nasceu respondi para mim mesmo: e daí? Não ele não vai ser da seleção brasileira de voleibol. Mas essa é um expectativa minha e só minha! Quem ficou frustrado ( por poucos instantes ) fui eu e não o Murilo. A vida é dele! Ele deve fazer as escolhas dele. O meu papel – e o da minha esposa – é proporcionar todas as condições o nosso alcance para que ele ( e a qualquer outro filho que tenhamos, com ou sem SD ) tenha autonomia e consiga, através dela, fazer as escolhas que ele julgar melhores para a vida dele. Apenas isso. O que vem além é cosmética. Obrigado!

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